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Preço não atingirá níveis anteriores, consideram economistas do FMI


Preço não atingirá níveis anteriores, consideram economistas do FMI

Dois dos economistas mais influentes do Fundo Monetário Internacional analisam as causas e as consequências da queda brusca do preço do petróleo, o que poderá dar um empurrão à economia global entre 0,3% e 0,7%, mas reflectir-se-á de forma muito negativa em alguns países. O mercado de futuros dá mostras que o preço vai recuperar, mas não para níveis anteriores, consideram Olivier Blanchard e Rabah Azeki

O preço do petróleo deverá recuperar para USD 73 por barril por volta de 2019, escrevem Olivier Blanchard e Rabah Azeki numa análise publicada no blog do Fundo Monetário Internacional (FMI). Blanchard e Azeki notam que ‘o mercado de futuros (de petróleo) sugere que o preço recupere mas não atingirá os níveis dos últimos anos.

Não se trata de economistas ‘quaisquer’. Ambos, e principalmente Blachard, têm uma enorme influência nas orientações do Fundo. Blanchard, com um currículo académico invejável, que passa pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT) e Harvard, é o director do departamento de pesquisa do FMI. Azeki chefia a equipa dedicada à área das mercadorias no departamento de pesquisa da instituição.

Para os dois economistas, o preço do crude terá uma lenta recuperação – um dos efeitos da sua brusca queda. Num primeiro momento assistir-se-á à redução da produção, ainda que uma redução relativamente marginal, afectando as produções menos rentáveis. A produção de ‘óleo de xisto’, que representa actualmente 4 milhões de barris do total da oferta diária global, que é de 93 milhões de barris, resiste a um preço até aos USD 60 o barril (tendo como referência a rentabilidade dos principais campos de xisto dos Estados Unidos – Bakken, Eagle Ford e Permian).

De acordo com Olivier Blanchard e Rabah Azeki a quebra abrupta do preço não decorreu essencialmente da preguiça com que a economia mundial está a retomar níveis de crescimento mais elevados. Estimam que o facto de a procura mundial andar abaixo do esperado terá contribuído apenas com 20% a 30% de responsabilidade na queda do preço da matéria-prima. A maior-quota parte de responsabilidade vem do lado da oferta e, não tanto o aumento da oferta, mas do sinal dado aos mercados, após a reunião da Opep, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo, de que não haveria lugar a qualquer ajustamento da quantidade de petróleo posta no mercado. É certo que a Líbia aumentou consideravelmente a sua produção em Setembro. ‘Um factor importante, no entanto, residiu certamente na intenção publicamente anunciada pela Arábia Saudita — o maior produtor de petróleo no interior da Opep — de não para combater a crescente oferta de petróleo, tanto por parte de membros da Opep como de produtores exteriores à organização e a subsequente decisão da Opep, em Novembro, de manter o seu tecto de produção em 30 milhões de barris por dia, apesar de existir a percepção de um excesso de oferta’, referem.

Oferta a mais sem especulação
Após lembrarem que os preços dos metais, que reagem à actividade global mais rapidamente que o preço do petróleo, não caíram tanto como o deste, o que mostra a especificidade dos factores que explicam a quebra petrolífera, em especial dos ligados à oferta, os economistas procuram traçar vários cenários para a evolução dos preços e aferir o impacto da sua queda sobre as economias importadoras e exportadoras de petróleo, desenvolvidas e em desenvolvimento. Blanchard e Rabah classificam a subida permanente dos preços num contexto em que a produção aumentava como o ‘cão que não ladra’, pois havia a percepção de que a Opep induziria o preço de referência. Contrariam, por outro lado, a ideia de que a volatilidade dos preços e a respectiva queda se ficou a dever a especulação no mercado, adiantando que o facto dos inventários norte-americanos terem atingido o seu ponto mais alto em dois anos sugere, pelo contrário, que a convicção predominante era de que os preços subiriam.

Os economistas do FMI consideram que foi a posição do produtor de referência, a Arábia Saudita, que explica a magnitude e o ‘timing’ do desabar dos preços, levando-os para ‘perto de um nível de equilíbrio competitivo’ e avisam que a queda de 1986 revestiu idêntico dramatismo. Na altura, a Arábia Saudita abdicou voluntariamente de ser o produtor ‘de equilíbrio’, fazendo com que os preços do petróleo caíssem de USD 27 para USD 14 por barril, recuperando apenas quinze anos mais tarde, em 2000.

‘Um tiro no braço’
Olivier Blanchard e Rabah Azeki, que começam por considerar a queda brusca no preço da matéria- prima como ‘um tiro no braço da economia global’, vêem nela aspectos positivos e negativos, estimando que represente um ganho para a economia (PIB) mundial entre 0,3% e 0,7% em 2015. Mas adiantam que ‘há muito mais (a considerar) nesta estória complexa e em constante evolução’. Os efeitos não serão iguais nos diferentes países, mesmo entre os importadores líquidos de crude e entre os países exportadores. Ou seja, os efeitos globais ‘mascaram efeitos assimétricos decorrentes de preços mais baixos entre os diferentes países. Os vencedores são os importadores (líquidos) de petróleo, os perdedores os exportadores (líquidos) de petróleo. Mas, mesmo dentro de cada um destes grupos, há diferenças relevantes’.

A China e a Índia, economias de ‘energia intensiva’ beneficiarão mais que os Estados Unidos, que já produzem metade do petróleo que consomem, ou que a Zona Euro e o Japão. O peso do consumo de petróleo no PIB é de 3,8% nos Estados Unidos, de 5,4% na China e de 7,5% na Índia e na Indonésia.

O efeito da baixa do preço do petróleo, que caiu cerca de 5% desde Junho e 40% desde Setembro, terá óbvios efeitos negativos nos países produtores embora, reparam os dois economistas, haja ‘diferenças substanciais’ entre os diferentes países. Em todos eles ‘o rendimento real vai baixar, assim como os lucros das petrolíferas; Esta, a imagem reflectida pelo espelho do que acontecerá aos importadores de petróleo. Mas o grau em que tal vai acontecer e o efeito da diminuição do preço do petróleo no PIB depende muito do grau de dependência (dos países produtores) das exportações de petróleo e da parte que representam das receitas do Estado’, notam Blanchard e Azeki. Que lembram que ‘em África, a exportação de petróleo representa entre 40% a 50 % do PIB do Gabão, Angola e República do Congo e 80 % do PIB da Guiné Equatorial’. O petróleo responde também por 75% das receitas governamentais em Angola, República do Congo e Guiné Equatorial.

Após assinalar que o preço em que os respectivos governos assentam o respectivo orçamento difere de país para país e reconhecer que muitos países se apresentam hoje mais bem preparados para encaixar uma crise no preço da matéria-prima que no choque petrolífero anterior, os economistas do FMI afirmam que, noutros países, o ajustamento implicará o ‘aperto fiscal, menor produção e depreciação da moeda’, pelo que se as expectativas de baixa dos preços (inflação) ainda não estiverem consolidadas, ‘a depreciação da moeda deverá conduzir a inflação elevada’.

Fonte: O País

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