contact@aopi.org Thursday - December 14,2017

Prestadoras de serviços de telecomunicações à beira da falência


Prestadoras de serviços de telecomunicações à beira da falência

Empresas privadas prestadoras de serviços à Angola Telecom podem encerrar as suas portas, após o cancelamento de vários programas e projectos da parte da empresa pública ocorrido no mês de Janeiro. A Telecom alega questões de contenção de gastos em virtude da crise do preço do barril petróleo.

Os sintomas das consequências da baixa do preço do petróleo na praça internacional, são cada vez mais visíveis e sentidos em quase todo os domínios da vida pública. Ao contrário do que defendiam alguns economistas da nossa praça, com doses “exacerbadas de optimismo”, alegando que não haveria consequenciais “graves”, antes pelo contrário, seria a oportunidade para diversificar a economia baseando-a na agricultura. Algumas pequenas e médias empresas prestadoras de serviço no ramo das telecomunicações registam um quadro “desolador”. Tanto é que existe um número considerado de empresas nesta condição que não estão longe de serem poupadas por este cenário de contenção de gastos e de novos investimentos.

O PAÍS sabe que entre as candidatas a uma provável “falência,” no mais curto espaço de tempo, figura a empresa portuguesa TELETRIFIM, COLMATEL (do grupo VISABEIRA), e a brasileira TELE REDE AFRICA, sendo que esta última terá declarado falência no mês de Fevereiro do presente ano, deixando centenas de trabalhadores nacionais e expatriados em casa. Destas referenciadas algumas estão a sobreviver graças aos pequenos contractos de construção e manutenção de sistemas de telecomunicações, com entidades como a MS-Telecom, ZAP, TV-Cabo dentre outras.

A situação dessas empresas agudizou- se depois do seu principal cliente o Estado, por intermédio da Telecom, ter cancelado quase todos os programas e contractos de prestação de serviço, desde Janeiro último.

De acordo com a companhia pública, e por intermédio de um técnico ligado a área de contratação e investimentos da Telecom, “ foi preciso efectuar cortes em alguns programas e consequentemente o cancelamento de vínculos com certas prestadoras de serviços”. A medida acolhida, com alguma dose de preocupação da parte dos parceiros atingidos, insere-se no âmbito das recomendações saídas da última reunião que juntou, em Luanda, altos responsáveis da referida companhia pública, cujo objectivo fulcral era a implementação de medidas de contenção face à famigerada crise do petróleo.

Entretanto, O PAÍS sabe igualmente que numa das motivações que levaram a Telecom a tomar tal decisão também pesou os cortes que irão sofrer, ou seja, deixarem, alegadamente, de beneficiar do Orçamento Geral do Estado.

Um posicionamento do Governo, aliás, achado a todos os títulos como acertado e que mereceu aplausos de vários analistas em matérias de economia e desenvolvimento empresarial. Estes “experts” afirmam “não compreender as razões desta dependência ao OGE, porquanto a empresa possuir um nível de facturação que poderia muito bem permitir a uma autonomia financeira.

“Porquê que uma empresa como a Telecom tem de merecer dinheiro proveniente do OGE. Não se compreende. Este dinheiro vai para onde?” Questionou um trabalhador há 20 anos na companhia pública, tendo apontado que essas receitas ajudariam de algum modo a tornar a empresa “Auto-sustentável” e melhorar as condições de trabalho e de vida dos trabalhadores.

Trabalhadores clamam por indeminização
Por conta desta situação algumas empresas deste ramo foram forçadas a encerrar as suas portas, enquanto outras vão sobrevivendo com a prestação de serviços em outros domínios desta actividade. Quem mais está a sofrer as consequências são perto de meia centenas de técnicos de cabos e crilas da TELE REDE AFRICA, mandados para casa devido ao encerramento provisório das suas portas.

Um destas pessoas lesadas é o técnico de cabo Felisberto Augusto, há oito anos naquela empresa. Ele descreve a situação actual como sendo crítica, uma vez que até ao momento não conseguiu um outro emprego. O sustento da família, segundo conta, está comprometido, sendo esta a única fonte de receita deste profissional.

“Está mesmo mal. Sem trabalho não há dinheiro e as crianças em casa não querem saber se a empresa fechou ou não. Simplesmente querem comer e ponto final”, lamentou este mesmo profissional. Dois meses é o tempo que estes antigos trabalhadores da prestadora de serviços aguardam por indeminização.

A este respeito, de acordo com uma fonte do gabinete jurídico da brasileira TELE REDE, esta situação constitui uma prioridade para os responsáveis máximos da empresa, pelo que tudo esta a ser feito para que num curto espaço de tempo as indeminizações sejam realizadas.

“A empresa tem de sacrificar os escassos recursos disponíveis, dada a actual conjuntura. Não se consegue indemnizar os trabalhadores a luz do previsto na legislação angolana, assim de forma rápida” explicou aquele responsável.

Outras prováveis consequências deste cenário é o facto da qualidade da rede de Tv-cabo vir a ser afectada, uma vez que a sua extensão e manutenção estava sempre entregue a estas empresas privadas. Os especialistas nesta matéria têm receios relativos a provavél existência de pessoal suficiente da parte da Telecom para manter a qualidade dos serviços. Assim como, o know how de especialistas de uma nova geração capaz de levar a bom porto o projecto de cabo em todo o país, conhecido como “back boni”, assegurando a comunicação através da rede fixa e outras valias como a internet cabo.

Mais empresas podem entrar em bancarrota.
Esta pelo menos é a previsão do economista Celestino Gaspar, segundo a qual as empresas não têm fundos capazes de garantir a sua sustentabilidade a longo prazo. Sobretudo, aquelas que têm contratos com o Estado, uma vez que este apresenta, na maioria dos casos, falta de rigor nos prazos de pagamento. Aquele economista acredita, a semelhança de outros, que uma aposta séria no sector primário poderia ser uma maneira mais viável de tirar proveito da situação. Embora admita-se que a aposta na agricultura não resolva de imediato a situação, se considerarmos que são projectos de longa duração.

Um engenheiro experiente defendeu recentemente que de todas as posições que fossem tomadas pelo Governo nenhuma delas teria probabilidade de atingir resultados satisfatórios se a aposta na agricultura não fosse alinhada com maior vontade política e rigor na aplicação de políticas públicas.

Já o agrónomo Fernando Pacheco acredita que a questão do comércio e a criação de condições de vida nas zonas rurais seria um grande incentivo para a redução das importações e criar receitas ao país de forma sustentável.

“Precisamos de ser mais sérios. Temos que ter comércio no campo. Precisamos produzir,” sentenciou.

VISABEIRA caça novos mercados

Apesar de este grupo ter fixado a maior parte dos seus projectos ligados às telecomunicações e à electricidade, em virtude da crise que atinge parte das suas empresas como é o caso da Comatel, os responsáveis do referido grupo desdobram-se na procura de novos mercados.

O PAÍS sabe que uma das novas apostas pretendidas pelos portugueses no país passa necessariamente pela manutenção de linhas férreas e o seu sistema de electrificação. Nesta altura, já estão em curso negociações com o Governo no sentido de serem firmados alguns acordos. Porém, sabe-se igualmente que ainda não foi dado um parecer favorável do Estado.

Entretanto, o ministro dos Transportes de Angola, Augusto Tómas, no encontro realizado no Lubango, no final do ano passado sobre linhas férreas de Angola e a sua modernização, disse que era preciso terceirizar os serviços de modos a potenciar o sector privado e evitar que o Estado se encarregue de fazer quase tudo. “Queremos contar com a modernização das linhas angolanas com o apoio do sector privado” esclareceu neste mesmo período, o ministro angolano dos Transportes.

Fonte: O País

COMENTÁRIOS