contact@aopi.org Tuesday - December 12,2017

Entre o lixo e o luxo Angola sobrevive à crise


Entre o lixo e o luxo Angola sobrevive à crise

Em meados e finais de Março, a província de Benguela, no Sul de Angola, ficou alagada. As chuvas causaram a morte de dezenas de pessoas, desalojaram famílias, destruíram campos agrícolas. O ar tropical está quente. Percorremos a estrada que vai do aeroporto da Catumbela à cidade de Benguela e vemos os destroços. Lagos a separar os musseques da estrada principal fazem com que as pessoas tenham de pôr as pernas na água para sair do bairro onde ficaram isoladas. Há poças por todos os lados. As estradas estão cheias de buracos. Nos passeios da cidade amontoam-se sacos de areia:

— Foi para conter a água e proteger as lojas, explica Marco Neves, mostrando uma estrada agora seca, enquanto conduz o seu “quatro rodas”. Há 20 dias não tinha estes buracos, a cidade está de patas para o ar por causa da chuva, continua.

Aos 33 anos, Marco é o sócio-gerente de uma empresa familiar de cash and carry, a Martins e Neves, e de uma cadeia de supermercados, o Ponto Alimentar. Com dupla nacionalidade, Marco Neves tem ainda um escritório da sua empresa de exportação em Portugal.

— Ali estão terrenos agrícolas, aponta, mostrando o património da família. Mas a agricultura em Angola está obsoleta, critica este empresário que nos guia à economia angolana.

A pressão demográfica nas cidades é tal que o terreno perdeu valor agrícola e passou a ter valor imobiliário, continua. Por isso a família está a tentar obter autorização para construir.

— Os países vizinhos são mais eficientes do que Angola: a Namíbia mete batata em Angola a um preço que eu não consigo. A manutenção dos tractores é cara, eles têm acesso a créditos que nós não temos. Existem programas legislativos em Angola mas é preciso ter o padrinho certo e nós não temos. Exige um grande esforço, estes canais são difíceis, tem de se dar muita gasosa [suborno].

O avô era produtor de bananas e exportava-as. Foi o único dos quatro irmãos a ficar em Angola depois da independência em 1975.

A crise financeira em Angola provocada pela quebra do preço da principal fonte de receitas do país, o petróleo, desde Junho, veio desregular as contas à empresa — à sua e a muitas, angolanas e portuguesas. A empresa tem à volta de 200 funcionários, na maioria angolanos. Dispensaram dois dos quatro funcionários portugueses porque “cada expatriado representa um custo muito elevado” — é o salário, mais o pagamento da casa, do seguro, do gerador...

As exportações de Portugal para Angola tiveram a maior queda dos últimos cinco anos, tão grande que o valor registado em Fevereiro fez com que Angola passasse de quarto para sexto lugar dos principais clientes de Portugal. O Governo português criou inclusivamente uma linha de financiamento de 500 milhões de euros para apoiar algumas das cerca de 10 mil empresas que exportam para Angola e estão com dificuldades em receber pagamentos.

— O véu é destapado quando começam a faltar divisas ao país, que duvido ser apenas resultado da queda do petróleo. Quando não há divisas para pagar aos fornecedores, temos de diminuir as importações: mas se não se compra, o país morre à fome, comenta.

A empresa de Marco deixou de conseguir pagar aos fornecedores por causa da falta de divisas em Dezembro.

Costumam receber oito contentores por mês; em Janeiro receberam zero, em Fevereiro idem; em Março, porém, foram quatro.

— Tenho os kwanzas no banco, mas o banco não tem dólares e euros para me vender, diz.

Chegamos ao Ponto Alimentar, um supermercado todo branco: chão, paredes, prateleiras. Há um talho, zona de frutas e legumes, arcas frigoríficas fechadas com os frescos lá dentro. Em obras e equipamentos, o supermercado tem um investimento de cerca de um milhão de euros, algo que em Portugal custaria uns 250 mil, diz Marco Neves.

As prateleiras estão cheias de produtos portugueses: marcas de refrigerantes, sumos, óleos e azeites, cafés, leites, etc. A produção local não chega para as necessidades do país, e neste supermercado 75 a 80% dos produtos são portugueses. Mas olhamos para os preços e percebemos que são muito superiores aos que se praticam em Portugal. Por exemplo, um quilo de feijão vermelho custa cerca de 700 kwanzas (6 euros), um quilo de arroz 1,1 euros, frango cerca de 6 euros.

— Não temos indústria, importamos tudo de Portugal, explica Marco enquanto percorre os corredores do supermercado em busca dos elementos de um cabaz básico para uma semana. O fabricante produz leite, mete à venda em Portugal a 0,60 cêntimos o litro; a pessoa que vai vender a Angola vende a 0,70. Para chegar a Angola, tem de levar transporte e essa empresa põe mais um X em cima. O Governo tem uma pauta aduaneira e taxa o leite — já estamos em um euro. Os importadores vendem a 1,10 e os supermercados que compram ao cash and carry vendem a 1,20.

Há outros factores, como explica Marco Neves: na Europa, um técnico de uma empresa da indústria de sumos pode apanhar um avião numa low cost e estar em Portugal rapidamente e a um preço relativamente baixo; se for a Angola, precisa de visto, passagem aérea e alojamentos caros, etc. A manutenção torna-se, assim, cara. Apesar dos custos, fazer negócio compensa?

— Compensa.

As vendas também são altas e a concorrência, mesmo assim, ainda é pouca.

Seguimos para o cabaz. Na prateleira dos feijões, Marco escolhe o mais barato, comprado a granel em sacos de 50 quilos. Comparativamente a uma marca embalada, é mais barato porque a pauta aduaneira o favorece.

— Qual é a lógica? Se importar 50 quilos, vou ter de contratar mão-de-obra local e gerar emprego para encher sacos, meter selos e pesar na balança; se importar já embalado, só vou precisar de uma pessoa que o tira da caixa.

A lógica é, assim, criar emprego e começar a “produzir” alguma coisa localmente.

Em frente às cervejas, Marco Neves fala agora das quotas porque este foi um dos tipos de produtos que o Governo planeou restringir em termos de importação — a medida seria depois suspensa em finais de Março, não se sabe até quando. O objectivo? Estimular a produção local. A política das quotas é praticada em muitos países, inclusivamente na União Europeia, e Marco Neves concorda com elas, mas defende que deve existir preparação e um estudo das quantidades dos produtos abrangidos que o país necessita antes de as aplicar.

— Se Angola consome tanto ou mais cerveja que Portugal, faz sentido a indústria instalar-se cá e criar postos de trabalho, exportar os lucros mas não as divisas todas. A cerveja mais bebida em Angola é a Cuca, mas as elites bebem as cervejas portuguesas importadas, Superbock e Sagres (que são, aliás, os produtos que Portugal mais exporta para Angola — valeram 143 milhões de euros no ano passado).

Isso é sinal de status?

— Também. Há aqui um efeito pavlov. Como temos esta ponte aérea com Portugal, acabamos por ficar ligados às marcas portuguesas. É marketing puro, mas é também o subconsciente a funcionar. Se vou comprar um produto, lembro-me do que bebi na minha infância.

Entre Dezembro, altura em que começaram a ficar mais evidentes os sinais da crise, e finais de Março, todos os produtos aumentaram uma média de 10%, calcula Marco, enquanto vai enchendo o carrinho vermelho com o cabaz, escolhendo sempre a alternativa mais barata.

— As pessoas não deixaram de consumir. Mas houve produtos que subiram muito por causa da especulação. O frango, por exemplo, foi dos produtos abrangidos pelas quotas: subiu e não voltou a descer.

Os prejuízos no negócio só saberá quais são no segundo trimestre do ano, explica, calculando que estejam entre os 10 e os 15%.

— A facturação baixou porque não tenho tantos produtos disponíveis, não consigo comprar como comprava. Não tenho tanto produto exposto, tenho umas prateleiras vazias, e há menos vendas. Antigamente, fazia menos contas do que hoje: havia produtos que não faziam parte da dieta, eram premium, e eu arriscava, hoje não arrisco. Por exemplo, nos leites, o mais caro, o premium, já não compro. Ainda não temos dados, calculamos que a descida das vendas tenha sido de 10 a 15%.

Desconhece, porém, qual a perda que se deveu à crise e qual a perda que se deveu à chegada de concorrência no mercado.

Chegados à caixa, a factura regista os 50 euros. São nove produtos: leite em pó, 22 euros (base da dieta alimentar da população porque o leite UHT é mais caro e além disso nem toda a gente tem energia em casa), frango (quase seis euros), farinha de soja (4,6 euros), arroz (1,1 euros), feijão (6,2 euros), açúcar (1,09), óleo (2,5 euros), vinagre (0,90) e sabão (0,50). No mercado de rua, o preço total não varia substancialmente deste.

Dados do Banco Mundial relativos a 2009, mostram que quase 70% da população angolana vivia com menos de dois dólares por dia — ou seja, uma cesta deste valor teria de dar mais ou menos para um mês (62 dólares). Na caixa está uma funcionária que ganha cerca de 500 euros mensais, um bom salário segundo ela e Marco Neves — uma cesta básica mensal levaria 40% deste ordenado.

O bairro de Miramar, em Luanda, é uma zona rica onde ficam as casas de diplomatas e embaixadas. Situado num cume, tem vista ampla sobre a cidade: arranha-céus já construídos, arranha-ceús por construir, a baía ao fundo, com a marginal onde os portugueses correm ao final do dia. Daqui, Luanda mostra-se como uma cidade em mutação, o cartão postal do grande produtor de petróleo, gigante africano a liderar o grupo dos países em aceleração económica.

É em Miramar que fica também uma das residências de José Eduardo dos Santos, uma moradia que dá a volta a um quarteirão. Perto, há um jardim com fontes, lagos, tudo visivelmente cuidado, mas nem na tarde de fim-de-semana se vêem muitas crianças e jovens a brincar por ali — apenas um ou dois grupos. Numas ruas à frente está um stand de automóveis com Jaguares e carros de topo de gama à venda. Tal como em algumas zonas de Luanda, o lixo e o luxo aqui convivem lado a lado. À frente deste stand há uma estrada cheia de buracos, lixo amontoado e na rua em baixo casas que podiam estar nos musseques (bairros de lata).

As chuvas de Março alagaram a cidade e tornaram o cheiro do lixo mais intenso. A recolha não se tem feito porque as empresas responsáveis não recebem do Governo Provincial de Luanda por “falta de liquidez” — queixam-se ainda que o mau estado das estradas não lhes permite chegar a determinadas zonas. Andar em pleno centro de Luanda num carro normal pode, de facto, ser uma aventura — além de o tráfego ser intenso, fazendo com que uma distância de um quilómetro demore facilmente meia hora a percorrer, as estradas estão muitas vezes com buracos enormes. Entre o pára-arranca vêm os vendedores às janelas dos carros com tudo o que se possa imaginar: cajus, fruta, cartões de carregamento de telemóveis, headphones a imitar marcas conhecidas, sacos de água, até chuveiros e outros produtos improváveis como tampos de sanita. É também na rua que se consegue o melhor câmbio para o dólar — conseguimos por 140 kwanzas, quando no banco variava à volta dos 110.

É uma das contradições e contrastes de uma cidade onde há casas a alugar por 25 mil dólares mensais e casas sem saneamento básico na rua em frente. Angola é o país que tem dos menores índices de desenvolvimento humano (é 149º em 187 países nos últimos dados das Nações Unidas). E ainda hoje, 13 anos depois do fim da guerra civil que durou 27 anos, continua a investir mais em segurança do que na educação e saúde — o orçamento do Ministério da Defesa é quase cinco vezes superior ao do da Saúde e Educação juntos, segundo a revista Exame Angola.

Luanda, a capital, é das cidades mais caras do mundo. Uma refeição que em Portugal, num restaurante com o mesmo nível de qualidade, não custaria mais de 8 euros, em Luanda custa mais de 20. A dormida numa pensão pela qual não se pagaria mais de 15 euros em Portugal, em Luanda custa 150.

Por que é que o custo de vida em Angola é tão caro explica-se com factores como o facto de o crescimento económico ter sido feito com elevados custos devido à falta de infra-estruturas, contextualiza o economista Manuel Alves da Rocha, director do Centro de Estudos e Investigação Científica (CEIC), da Universidade Católica de Angola. “E as infra-estruturas que foram construídas têm uma qualidade que deixam a desejar. Isso tem como resultado aumentar os custos de funcionamento da economia. Depois temos um problema que não sei se terá solução em Angola, que é o do gerador e da água: funcionamos a gerador, o que eleva imenso os custos de produção, e a água fornecida a domicílios está cara porque tem de se captar de longas distâncias. Temos uma baixa de produtividade da economia, sistemas de transporte ineficientes e uma série de factores que estão relacionados com todas as dificuldades e 27 anos da guerra civil.”

Há ainda a dependência das importações, que encarece tudo — e a “petrodependência”. O petróleo representa cerca de 95% das exportações, 75% das receitas fiscais e 50% do PIB. Sendo um dos grandes produtores de petróleo do mundo, Angola investiu pouco em outras áreas, como a agricultura. Daí que a queda do preço do petróleo tenha um efeito dominó tão acentuado na economia angolana. Não é a primeira vez que isto acontece, lembram analistas. O primeiro choque resultante da variação do preço do petróleo aconteceu ainda durante a guerra civil, em 1998, lembra Manuel Alves da Rocha. O segundo choque aconteceu em 2008 e 2009, altura em que a queda do preço do petróleo foi consequência da crise internacional. Na altura, o Fundo Monetário Internacional foi chamado a intervir.

Neste terceiro choque, ainda é incerto o que vai acontecer, lembra Alves da Rocha, que não acredita que a queda seja passageira. “Se nada acontecer no mercado internacional do petróleo, as coisas vão ficar complicadas para a economia angolana”, prevê, lembrando que o Governo reviu em baixa o investimento público, o segundo factor de crescimento do país, depois das exportações de petróleo. Mas “mesmo assim o orçamento ainda vai apresentar um défice significativo”.

No orçamento revisto para este ano, as projecções do Governo sobre o crescimento do produto real foram reajustadas de 9,2% para 6,6%, lembra o economista — o primeiro orçamento para 2015 tinha-se baseado nos 80 dólares por barril, mas ajustou-se para metade, 40 dólares. Porém, as projecções mais pessimistas de algumas agências apontam para uma taxa de crescimento de 2,5%, outras vão aos 3%. Seja como for, prevê, “a intensidade de crescimento vai diminuir”. Quanto à dívida pública, esta não constitui problema: “Há margem de progressão nesta matéria, o Estado pode continuar a criar dívida pública para financiar os investimentos públicos.” “Enquanto o nível de dependência do petróleo for este, os problemas mantêm-se”, diz Carlos Rosado Carvalho, director do semanário económico Expansão, do grupo privado ScoreMedia. Sentado na redacção do jornal, com as capas do Expansão por trás penduradas na parede, Rosado Carvalho descreve: “O Estado em Angola tem um peso muito grande, através do investimento público e do emprego. Se tem menos rendimentos e investe menos, isso traz problemas gravíssimos do ponto de vista económico, e o principal é o problema cambial.”

Mas ressalva: “Agora o problema de Angola é um bocadinho como a febre — não é uma doença, é uma infecção e esta petrodependência é o sintoma, porque o principal problema é a falta de competitividade da economia.”

Noutra zona de Luanda, em Talatona, bairro onde ficam sedes de empresas e centros comerciais, Jaime Fidalgo Cardoso, director da revista Exame Angola, comenta: “Em Portugal, pensamos em crise e associamos a cortes, a dívida”, mas “não é nada disso que se está a passar aqui”, defende. “Não há uma crise da dívida, porque a dívida em Angola é baixíssima, 36% do PIB. Também não se estão a fazer cortes sociais, porque já não havia. O que há é uma crise de liquidez — é como nas empresas, uma coisa é o balanço económico, outra é a tesouraria.”

A revisão do Orçamento levou a cortes em áreas como a agricultura (de 12,3% para 7,9%), indústria (de 11,2% para 6,8%) ou construção (de 10,5% para 6%) — dados da Exame. Isto afectou empresas portuguesas de construção — o Sindicato da Construção Civil português tem feito vários alertas sobre os atrasos de pagamento a construtoras e trabalhadores em Angola. Uma grande construtora portuguesa teve de deslocar quadros de Angola para outros países, disse-nos, sob anonimato, um funcionário dos quadros administrativos, mas a situação estava a ser desdramatizada pela empresa, que tinha sido cautelosa nos seus investimentos. Outra construtora estava sem receber do Estado há seis meses, revelou também sob anonimato um funcionário.

O primeiro efeito da crise foi o cambial, lembra Carlos Rosado Carvalho. “Começou a haver escassez de divisas; os emigrantes que têm necessidade de fazer transferências começaram a ter problemas.” O valor das remessas de Angola para Portugal tem vindo a cair desde Setembro. Em Janeiro, chegaram aos 15,3 milhões de euros, menos 24,5% face a idêntico período de 2014. Rosado Carvalho destaca que esta questão tem também afectado “os próprios angolanos, que querem viajar, têm filhos a estudar no estrangeiro ou se querem tratar”.

Ou seja, a crise não está a atingir apenas as classes mais baixas. Luís Fernando, administrador executivo do grupo privado MediaNova (que tem a Exame ou o jornal O País), não tem dúvidas: “A crise não está nos jornais nem é uma conversa de economistas, está aí, é real.” Está a afectar as classes média e alta — hoje é mais difícil ir de férias, usar cartões de crédito, fazer tratamentos de saúde no estrangeiro — “podendo, ninguém aceita fazer uma intervenção mais séria em Angola”, lembra.

No dia em que conversámos, em finais de Março, Luís Fernando tinha estado a “safar uma sobrinha que está a estudar em França”: “O dinheiro da bolsa não lhe chegava por causa da crise e descobriu o tio como a última salvação, perdeu a vergonha e eu tive de me virar. Não estamos a falar de uma situação que possa esperar, estamos a falar de uma pessoa que passava fome.”

Militante do MPLA, lembra que “em boa hora aconteceu esse problema com o petróleo”, que acaba por ser uma maldição. “Angola tem os melhores pastos do mundo, vá verificar esses pastos e não há vacas a pastar. Se temos dinheiro a jorrar das plataformas de petróleo, é mais fácil comprar a carne lá fora. Este é o país que não produz rigorosamente nada, nem um pente. Não é normal que 24 milhões comam coisas vindas de fora. Não há nada na nossa produção que não dependa do estrangeiro. Se produzo frango, há algum elo na cadeia produtiva que depende do estrangeiro — quanto mais não seja o técnico. Se não tenho divisas para importar a maquinaria, vou ficar encalhado, entrar em colapso. Criámos uma cultura dos petrodólares.” É urgente, por isso, apostar na diversificação da economia, mas isso será feito ao longo de várias gerações, lembra.

Para saber exactamente que fatias da sociedade estão a ser afectadas pela crise e qual o impacto, será preciso esperar mais um pouco, dizem alguns. Há quem defenda que “o problema não está apenas no facto de o preço do petróleo baixar”, é que a estrutura de despesa do Estado é gigantesca e muito centralizada na estrutura central do Estado, aponta Belarmino Jelembi, director da organização não-governamental de desenvolvimento ADRA. A crise está a afectar algumas empresas angolanas que prestam serviços ao Estado, na área da alimentação, dos hospitais, das empresas do lixo, analisa.

O impacto e a percepção da crise varia. Há mesmo quem relativize. Para portugueses como José Rodrigues, director de recursos humanos da DHL, esta crise não é tão grave como a de 2008, altura em que ficou meses sem receber o salário quando trabalhava para outra empresa. Agora houve uma quebra do volume de mercadoria transportada pela DHL, mas ele recusa ter um discurso de “profeta da desgraça”. Tirando o aumento de um ou de outro produto, não notou diferença na sua contabilidade pessoal diária — os seus gastos mensais, sem pagamento de aluguer de casa, assegurado pela empresa, continuam a ser de entre 1300 a 1500 dólares. Analisa: “Com este envolvimento, as empresas aproveitam para fazer uma limpeza, pegar nas pessoas que não são necessárias e investir um bocado nos quadros locais.”

Ter dados sobre a extensão da crise é difícil. Em Angola há um “problema de estatísticas que, ou não existem, ou são divulgadas com atraso muito grande”, comenta Rosado de Carvalho. A questão é que o país não pode continuar petrodependente, é preciso trabalhar nos “factores que minam a competitividade em Angola — as burocracias, a corrupção, a falta de qualificação da mão-de-obra. São coisas que não precisam de dinheiro: pelo contrário, as reformas estruturais geram dinheiro e poupam recursos”.

A par disso e olhando para as relações “muito fortes entre Portugal e Angola”, o jornalista considera que “há uma mudança de paradigma que é o facto de Angola, independentemente da queda do petróleo, precisar de diversificar e produzir internamente produtos que importamos de outros países, nomeadamente de Portugal”. “Para um país que não tem indústria, faz sentido que alguns sectores tenham alguma protecção; o que me parece errado é o facto de esse proteccionismo não ter um prazo. Muitas coisas que compramos a Portugal podemos comprar a outros países africanos — e Angola pode funcionar como porta de entrada num mercado mais vasto.”

Actualmente, Portugal é o maior fornecedor de Angola, à frente de países como Brasil, Estados Unidos e China.

Por isso acredita que ou as empresas portuguesas escolhem outro tipo de produtos para exportar, que não passem, por exemplo, por águas, ou haverá uma diminuição natural do volume de exportações. “Ainda é um pouco cedo para avaliar o impacto na comunidade portuguesa. Portugal não pode olhar para Angola como uma coisa conjuntural. Angola tem um potencial enorme, se esse potencial se materializar haverá naturalmente mais necessidade de portugueses em Angola e até de exportações para cá, mas não o mesmo tipo de produtos que se exportava até agora. Estamos a falar de um país com 24 milhões de habitantes, com um território 14,5 vezes maior que Portugal e com um PIB que é metade do português: a economia angolana vai crescer. Agora este crescimento depende da diversificação da economia” — que “vai levar muito tempo”.

Apesar da quebra, o petróleo continua a produzir riqueza. Só a sua exportação em Janeiro, a partir de dez concessões, rendeu cerca de 1,16 mil milhões de euros. É preciso, então, sair das estradas de terra batida para ver onde está essa riqueza.

Do alto de um arranha-céus, à noite, as luzes dos prédios fazem de Luanda uma cidade que se mostra cosmopolita. Na varanda do Dooh Bar, o bar da empresária Isabel dos Santos, desfilam manequins, há dourados, muitos, e um grau de sofisticação na produção da toilette que já não é frequente ver em muitos sítios de Portugal. Nas mesas espalham-se chocolates e copos com bebidas. Elas e eles vestiram-se a rigor para uma festa de Páscoa. Aqui o champanhe só se vende à garrafa: custa cerca de 250 euros. Um português gestor do negócio de uma da grandes marcas de champanhe, que preferiu ficar sob anonimato, diz que o impacto da crise só se tem notado nas noites, com uma noite forte semanal em vez de três.

Apesar disso, a facturação tem crescido nos últimos dois anos — têm aumentado a capacidade de distribuição e de logística, e chegado a outras cidades além de Luanda, que representa 90% do negócio. Na venda em supermercados, onde uma garrafa custa à volta de 80 euros, a crise não se sente.

Vale, por isso, “muito a pena” estar em Angola a todos os níveis, até porque “a personalidade do consumidor angolano fá-lo ter necessidade de escolher este tipo de produto, a escolha de marcas de luxo para afirmação social ainda é uma prioridade”, continua o gestor. “Não havendo possibilidade de fazer estudos de mercado por causa da falta de informação, nós no nosso dia-a-dia vamos conseguindo fazê-lo. Posso dizer que temos eventos onde um grupo de pessoas chega à festa e pede 50 garrafas de champanhe ao mesmo tempo. Vemos que não vão beber as 50 garrafas, muito menos ao mesmo tempo, mas fazem questão que o ritual seja esse. A questão de se mostrarem como pessoas com capacidade económica está muito presente — isto é notório todas as semanas e de forma recorrente.”

Não deixa de ser paradigmático que o país em que cerca de 37% da população vive abaixo do limiar da pobreza nacional com 40 euros por mês (dados de 2013, estudo do BPI) seja o mesmo que tem um dos maiores consumos de champanhe per capita: as vendas rondaram as 40 mil caixas por ano (240 mil garrafas), sobretudo em Luanda, para um público-alvo estimado de 300/400 mil pessoas. “É muito champanhe para tão pouca gente.”

Fonte: Público

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