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Angola gasta mais em defesa do que a África do Sul e a Nigéria juntas


Angola gasta mais em defesa do que a África do Sul e a Nigéria juntas

Angola lidera destacadamente o ranking africano das despesas militares do ano passado, com 6,8 mil milhões USD, à frente da África do Sul e da Nigéria. Na educação e na saúde, as posições invertem-se.

Angola sozinha gasta mais em defesa do que a África do Sul e a Nigéria juntas, segundo contas do Expansão a partir de dados de 2014 compilados pelo SIPRI, acrónimo inglês de Instituto de Investigação para a Paz Internacional de Estocolmo.

Segundo a organização sueca, Angola liderou destacadamente o ranking africano de despesas militares do ano passado, com 6,8 mil milhões USD, contravalor dos 673 mil milhões Kz inscritos no OGE de 2014 - o SIPRI não considera os gastos com a segurança e ordem pública, que ultrapassaram 500 mil milhões Kz.

Em 2014, a soma dos gastos militares das duas maiores economias de África não ultrapassaram 6,2 mil milhões USD: 3,9 mil milhões USD na África do Sul e 2,3 mil milhões USD na Nigéria - a diferença entre o total e a soma das partes deve-se a arredondamentos.

O que justifica que a terceira maior economia de África gaste mais defesa do que as duas maiores juntas? "Os gastos militares de Angola podem ser justificados, entre outros factores, com a localização geoestratégica do País", diz António Luvualu de Carvalho, professor de Relações Internacionais, em e-mail enviado ao Expansão.

"A localização geográfica de Angola obriga o País a ter grandes despesas militares para ter um Exército sempre em prontidão para responder às dinâmicas das regiões onde se encontra", precisa o também analista político.

"Hoje, as organizações sub-regionais assumem-se como elementos primordiais para o garante da paz no continente e não só", prossegue, destacando "o papel que Angola assume em duas: na Comunidade Económica da África Central (CEEAC), e na Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC), cada uma delas tem os seus protocolos militares." A nível continental, lembra o professor da Lusíada, "não podemos esquecer que Angola é um actor central na African Standby Force (ASF) e na African Capacity for Immediate Response to Crises (CARIC), que devem substituir as ASF".

Como se alimenta esta máquina militar?, questiona. "Também, não nos podemos esquecer da protecção das nossas vastíssimas fronteiras".

A título de exemplo, Angola tem com a RDC a 12.ª maior fronteira terrestre internacional por comprimento com 2.511 km. Como é que se protege essa fronteira com os perigos todos que sabemos existirem?, questiona de novo. Belarmino Van-Dúnem, também especialista em Relações Internacionais, ouvido pelo Expansão, subscreve o argumentário geopolítico: "As forças armadas angolanas ainda estão num processo de reforma, e de reedificação e modernização. O que implica investimentos avultados na formação e na compra de material de guerra adequado à realidade regional, continental e mundial, de forma geral", elabora.

Ao contrário do que fez a Nigéria por razões de ordem interna. Segundo o também professor universitário e analista político, "a Nigéria tem um défice no que refere ao investimento nas Forças Armadas devido à desconfiança existente nas forças armadas, pois parte do investimento tem ido parar a mãos erradas, nomeadamente nas dos terroristas do Boko Haram", diz.

"Por isso, o governo do presidente Goodluck Jonathan deixou de investir nas Forças Armadas, tendo investido somas avultados na compra de serviços de segurança fora do país, inclusive mercenários", conclui. Uma atitude que custou caro a Jonathan, segundo Luvualu de Carvalho.

"O avanço do grupo Boko Haram, que dividiu a Nigéria em duas e ameaçava outros países da região como o Níger e os Camarões, deve-se ao fraco investimento nas Forças Armadas do país que o povo 'condenou' nas eleições infligindo uma pesada derrota a Goodluck Jonathan, elegendo o major-general Muhamadu Buhari que já conferiu outra cara ao Exército nigeriano", justifica.

Os dois especialistas coincidem também ao explicar por que é que a África do Sul gasta menos do que Angola na defesa. O baixo nível de despesas militares sul-africanas "pode estar relacionado com a estrutura das Forças Armadas, que é auto-sustentada. O exercito sul-africano possui uma indústria de guerra com exportação, além de prestar serviços nas mais diversas áreas, captando, assim, receitas". "Muito do que Angola compra na África do Sul é produção local", diz, por seu turno, Luvualu de Carvalho.

"Apesar de ser comprovadamente a maior potência económica do continente, no capítulo militar não tem tantas despesas, pois sabemos que tem uma indústria militar muito desenvolvida".

Se nas despesas militares Angola leva a melhor sobre a África do Sul, na educação e na saúde, fundamentais para o desenvolvimento a longo prazo, sucede o inverso. A diferença é especialmente notória na saúde, onde os sul-africanos gastaram, em 2013, o equivalente a quase 9% do PIB, mais de duas vezes o esforço de Angola (3,8%) e da Nigéria (3,9%).

Na educação, a África do Sul despendeu, em 2010, 6% do PIB; em Angola, essa percentagem não ultrapassou 3,5% - não existem dados para a Nigéria. Angola não se destaca apenas em valor absoluto. O País também lidera o ranking dos gastos militares por habitante, com 310 USD, muito à frente da Namíbia e da Guiné Equatorial, segunda e terceira, respectivamente, com 238 USD e 208 USD.

Considerando o esforço relativo que os países fazem nos gastos militares, seja em percentagem produto interno bruto (PIB), seja em percentagem das despesas públicas totais, Angola cai para o terceiro lugar do ranking africano. Em 2014, as despesas militares angolanas absorveram o equivalente a 5,2% do PIB, muito atrás do Sudão do Sul, primeiro neste critério, com 9,3% do PIB, mas muito próxima do Congo, segundo, com 5,6% PIB.

No mesmo ano, os gastos militares consumiram 12,5% do 'bolo' orçamental angolano, num ranking liderado, mais uma vez, a grande distância pelo Sudão do Sul, com 20,8%. Muito atrás do Sudão e colada a Angola, surge a Guiné, com gastos militares equivalentes a 12,6% do OGE.

Fonte: Expansão

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