contact@aopi.org Tuesday - December 12,2017

Angola, um bravo romper do silêncio


Angola, um bravo romper do silêncio

Nos cerimoniais lusófonos costumamos contentar-nos com evocações de tempos idos, com polidos discursos de apaziguadora retórica ou autocontentamento. Falamos, por exemplo, da criativa resistência dos Estudantes da Casa do Império e dos dissabores que lhes foram impostos pela ditadura portuguesa, mas passamos ao lado do que desses tempos parece ainda ensombrar as actuais realidades. Em Angola, por exemplo. Nos tempos da ditadura, com Salazar ou Caetano, havia campanhas contra a repressão e pela libertação dos (muitos) presos políticos, em Portugal e nas suas então colónias. Muitos arriscaram envolver-se nelas e foram, por isso, também detidos, interrogados e presos. Outros foram torturados, tantas vezes com barbaridade. Porque, para a ditadura, não havia presos políticos, havia apenas inimigos do regime. Delinquentes subversivos, que só podiam estar presos. E as polícias agiam em conformidade. E com sádica violência.

O que se passa hoje em Angola lembra (e não devia lembrar) tais tempos, pela forma ignóbil como se mantêm presos políticos fingindo que são apenas “desordeiros” e inimigos da “ordem e segurança pública”. Os governantes angolanos, se tivessem um só minuto que fosse para pensar no que sofreram milhares dos seus compatriotas com a ditadura portuguesa, deviam ter vergonha deste seu procedimento. Deviam ouvir os que, agora, com uma civilidade determinada, os chamam à razão. Ouvirá José Eduardo (dos Santos) o que lhe diz José Eduardo (Agualusa)? E, com ele, tantos outros? Ouvirá os apelos da Amnistia Internacional? Perceberá realmente o que lhe pede Rafael Marques, também ele alvo habitual do regime, quando diz: “Proteja-se com a ética da Constituição e ouvindo os seus críticos, que são os que menos mal lhe desejam”? As vozes que hoje se erguem contra o arbítrio são um bravo romper do silêncio. Ouçam-nas. Elas têm razão.

Fonte: Público - Direcção Editorial

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